A inspiração de Bocejos de Felicidade provém de Drummond:
Sweet Home
A Ribeiro Couto
Quebra luz, aconchego.
Teu braço morno me envolvendo.
A fumaça do meu cachimbo subindo.
Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês.
O jornal conta história, mentiras…
Ora, afinal, a vida é um bruto romance
E nós vivemos folhetins sem o saber.
Mas surge o imenso chá com torradas,
Chá de minha burguesia contente.
Ó gozo de minha poltrona!
Ó doçura de folhetim!
Ó bocejo de felicidade!
Carlos Drummond de Andrade
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O bocejo pode ser a nossa revolta
Um tratado de quase mil páginas sobre o tédio vai nos ajudar a compreender o universo da chatice
Por Sérgio Augusto
O que há de comum entre, digamos, o Big Brother Brasil, o ramerrão político nacional, os livros de auto-ajuda, os celulares, a Caras, o garoto das Casas Bahia, as edições especiais sobre dietas e sexo das revistas semanais, as telenovelas, as colunas sociais, a consagração literária de Bruna Surfistinha, os sites sobre fuxicos e celebridades, as narrações esportivas de Galvão Bueno, a epopéia do astronauta Marcos Pontes, as afetações da Fernanda Young e notícias do tipo “Cyro Laurenza pode ser pai de Érica em Belíssima”?
Resposta: o tédio.
Pesquisa nenhuma aglutinou, para mim, essas chatices. Peguei-as ao léu, consultando parte do meu tediômetro, e não me desculpo pela subjetividade. Aliás, só os chatos fazem questão de objetividade em escolhas subjetivas e acreditam na ilusória cientificidade das pesquisas.
Assim como gosto se discute, paciência cada um tem a sua. Com a idade, ela costuma diminuir, como as senhoras acometidas de osteoporose. Minha paciência com o tédio só pode ser medida, atualmente, com o auxílio de uma lupa. Mas eu me defendo, evitando de todas as maneiras perder tempo com bobagens. Ergui um firewall contra os spams da vida real. No meu disco rígido mental não há espaço para irrelevâncias e cretinices. De tédio, pois, não morrerei. Mas se o Céu existir e para lá eu for designado, aí, sim, as coisas se complicarão. Também desconfio, como Isaac Asimov e tantos outros, que o Paraíso seja um tédio só. E desde sempre; ou Nietzsche não teria proposto que um grande poeta tentasse expressar o tédio que teria se apossado de Deus do sétimo dia da criação em diante.
Ele (o tédio, não Nietzsche) é a fonte de todo Mal ou de todos os males, se me permitem adulterar um pouco a célebre definição de Kierkegaard, que talvez tenha sido quem refletiu com mais sutileza sobre o assunto. E sem precisar tocar em filas de espera, em insônia, nos chatos que nos assediam em festas e na rua, em missas e batizados, em berimbaus e gaitas de fole, na faina de ascensoristas e operários de linha de montagem. Bertrand Russell achava que mais da metade dos pecados da humanidade havia sido cometida pelo medo ao tédio. Se incluirmos entre esses pecados os suicídios, a cota aumenta.
A depressão é um subproduto do tédio. “Cansei”, explicou-se, num bilhete lacônico, o jornalista Yllen Kerr, antes de abrir o gás. “Dear World: I am leaving because I’m bored” (Mundo querido: estou partindo porque enchi meu saco), comunicava a nota encontrada junto ao cadáver do ator George Sanders. Matar alguém de tédio, para o fotógrafo Cecil Beaton, era “o segundo maior crime do mundo”. O primeiro? “Ser um tédio”. Jean Baudrillard apropriou-se dessa frase sem mudar-lhe uma vírgula. Yawn!
Por que trouxe à baila o que os franceses chamam de “ennui”, os italianos de “noia” e os ingleses e americanos de “boredom”? Embora assunto sempre atual, em permanente evidência, o tédio ganhou especial dimensão esta semana por causa de um sujeito chamado Augustin de la Peña. Ou, mais precisamente, por causa do jornalista Michael Crowley, que na revista The New Republic que acaba de chegar às bancas revelou ao mundo que De la Peña, psicofisiólogo formado em Stanford, atualmente lotado num centro de pesquisas texano sobre insônia e outras doenças do sono, terminou seu tratado de quase mil páginas sobre o tédio, após 20 anos de estudos e reflexões. Frisson no mundo acadêmico, que quase morreu de tédio de tanto esperar pela magnum opus do professor.
Acrescido de centenas de referências e cinco apêndices, o tratado tem tudo para encarnar um paradoxo: ser um ensaio sobre o tédio inapelavelmente tedioso. Semelhante objeção alguns fizeram aos filmes que celebrizaram Antonioni (A Aventura, A Noite), clássicos absolutos da taedium vitae da burguesia italiana de 40 e tantos anos atrás. Os miméticos dramas de Antonioni não eram tediosos. Se o eram, como qualificar, por exemplo, os hieráticos filmes de Jean-Marie Straub? Fomos injustos com Antonioni. E até mesmo com as comédias dos Três Patetas, inspiradíssimas se comparadas à telenovela Bang Bang, o tédio em estado puro, a quintessência da chatura.
Perguntado sobre quando e por qual editora seu tratado sairia, Augustin de la Peña, menos constrangido do que quando respondeu a essa pergunta pela primeira vez, revelou: “Talvez nunca.” Nenhuma editora se interessou pelo livro até agora. “Tédio não vende”, passou De la Peña o seu pano quente.
Vende, sim. Mas só se formatado como livro de auto-ajuda ou de humor. De dieta já fizeram pelo menos um, The Boredom Diet_como se existisse alguma dieta não tediosa. Tratado a sério, se encontrei quatro obras no site da Amazon, foi muito. O mais respeitado, ficção à parte (destaque para La Noia, de Alberto Moravia), é um estudo do filósofo norueguês Lars Fredrick Svendsen, traduzido na Inglaterra no início do ano passado: A Philosophy of Boredom. Oitocentas páginas o separam do tratado do prof. De
la Peña. O que não significa que o ensaio de Svendsen seja superficial, um algodão doce para eruditos de coquetel.
A variedade de suas fontes é impressionante: de Pascal a Samuel Beckett, passando por Heidegger, Iggy Pop e os Pet Shop Boys. Além de outros roqueiros. G.G. Allin and the Buzzcocks não gravaram Boredom? (Com um solo de guitarra de uma nota só.) Svendsen considera o movimento punk um repto ao tédio, ao ócio sem dignidade da burguesia, que o espanta com overdoses de televisão e uma escravização sem alforria a distrações portáteis como celulares, iPods, BlackBerry e videogames.
“Boredom” é uma palavra que antes da segunda metade do século 18, antes, portanto, da revolução industrial, era sempre associada à melancolia e à acídia (indiferença). Seu conceito moderno, como sinônimo de fastio-por-não-ter-o-que-fazer, nasceu com o advento das máquinas, das fábricas e a substituição do artesão pelo operário. A indústria de entretenimento minorou o tédio, ampliou as possibilidades do ócio inteligente e criativo, mas a preguiça mental continuou sendo um entrave ao pleno desfrute de suas possibilidades.
Há dias, Steven Johnson voltou a insistir, em seu blog, que o tédio morreu, executado sumariamente pela cultura da distração constante e abundante. Johnson é o autor de Everything Bad is Good For You (Tudo que é ruim é bom para você), polêmica defesa de que a exposição ao lixo regurgitado pela mídia & quejandos só faz melhorar (e muito) o nosso Q.I. Entre o antídoto de Johnson e o tédio, ainda prefiro o tédio, que é um vazio a ser preenchido da maneira que melhor me aprouver e com a criatividade de que sou capaz.
Bocejemos, portanto. Com convicção, com prazer. O bocejo é o preâmbulo da nossa revolta contra a barbárie cultural.


2 comments
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Setembro 6, 2007 às 9:23 am
bruna
gostei muito..esta poesia é linda e os comentários muito 10
Abril 5, 2008 às 5:05 pm
ingrid
Olá , gostaria de receber alguma musica ou poesia com a palavra filosofia. É urgente , me ajudem.
Obrigada desde já
Ingrid : )