Do Título

Coube a mim desenvolver uma justificativa para a escolha do título do blog em questão. Pedi permissão para isso, nada mais justo, afinal, eu quem o sugeri. Queria que “bocejos de felicidade” se consolidasse como nome da página. Ressalto que tentarei fazer um texto com cadência e tranqüilidade, mas, no entanto, acredito que dificilmente conseguirei evitar certas palavras rudes e cortantes, alguns lapsos de violência formal aparecerão repentinamente na minha escrita. Meu objetivo é fazer um texto utilizando predominantemente uma linguagem objetiva, filosófica, isolando traços literários costumeiros. Como se sabe, a tentativa é o primeiro passo para o fracasso.

Fiz questão de que a publicação dessa coluna acontecesse no dia de domingo. O motivo é simples; é o dia mais tedioso da semana. Nego-me, até hoje, a aceitar que ele seja o primeiro, para mim será sempre o último. É o dia da ressaca em todos os sentidos, somos dragados por uma lentidão constante, vemos-nos no meio de um redemoinho de tédio que insiste em fantasiar-se de entretenimento. É o dia do palhaço sem graça, que mais assusta que diverte. É o dia de ir ao zoológico, onde os animais enjaulados conseguem mostrar mais desânimo que os visitantes, pessoas que ainda acreditam que o gosto da pipoca é tão bom quanto o cheiro. É o dia de Gugu, Faustão, Raul Gil e Sílvio Santos. É dia de Galvão Bueno, com futebol ou Fórmula 1, não importa. Sua narração sempre tenta chamar a atenção para o espetáculo a que estamos assistindo, o grito de gol é cada vez mais forte e demorado. Esperamos o entardecer mais desanimador da semana, já começamos a imaginar segunda-feira, mas, antes de chegarmos lá, ainda somos presenteados com um programa que teima em nos convencer de que tudo isso é realmente “fantástico”. Engraçado, todos são líderes de audiência, vai entender.

Eis que chegamos ao ponto. Observo todos os dias o esforço de muitos para fugir desse mal aterrorizante. Domingo mereceu destaque, mas em todos os dias isso é real. Temos inúmeras opções oferecidas, mas, no final, nem parecem tantas assim. Não percebem que não há como fugir, seria uma fuga louca, sem propósito, uma luta perdida; o tédio é, inúmeras vezes, mais rápido que a velocidade da luz e, pior, ele não se cansa. “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Renda-se e conviva.

O tédio sempre foi assunto recorrente na filosofia e na literatura. Muitos dizem que a primeira tem como objetivo principal a felicidade. Não seria coerente de minha parte, portanto, por estar escrevendo um texto com apelo filosófico, recomendar um mal e dizer para desistir da luta, admitir derrota, desistir da felicidade. Estaria sendo pessimista, não o sou. Apesar disso, sempre apreciei as idéias de Arthur Schopenhauer. Considerado o fundador da escola pessimista, é dele um aforismo que considero o mais rigoroso e triste da filosofia; “A vida oscila, pois, como um pêndulo, da direita para a esquerda, do sofrimento ao tédio”. André Conte-Sponville, filósofo contemporâneo, explica em poucas palavras: “sofrimento porque desejo o que não tenho e sofro esta falta; tédio porque tenho o que, por conseguinte, já não desejo”. Por enquanto, peguemos a frase de Schopenhauer como base, consideremo-la verdadeira.

Imaginemos uma criança esperando por seu presente de Natal. Ela passa, todo dia, depois da escola, pela vitrine de uma loja e fica observando um brinquedo que deseja muito. Ela pensa, mesmo inconscientemente, que só será feliz quando tiver tal brinquedo. Depois de tanta espera, chega o dia vinte e cinco, ela ganha justamente o que queria. Não consegue conter tanta alegria e já começa a se distrair com o presente. Vamos supor que o brinquedo seja muito legal mesmo, criativo, bonito, divertido, simplesmente o máximo. Com muito otimismo, podemos pensar que a criança usou o brinquedo todos os dias, por seis meses. Porém, chega uma hora em que ela se cansa, sem contar que o Natal está chegando de novo, e ela volta a ficar colada na vitrine da mesma loja, olhando um brinquedo, que, aparentemente, é muito mais brilhante. Não é difícil chegar à conclusão de que esta situação se repetirá muitas vezes. Pois bem, analisemos. Surge o sofrimento, ela ainda não tem o brinquedo; tédio, o brinquedo não é mais divertido; procura um novo objetivo, passa pela loja e observa a vitrine; sofrimento, ela quer porque quer aquele brinquedo brilhante. É nessas horas que penso como a vida é simples. Um problema simples e, ao mesmo, tão difícil de resolver.

Lógico, é possível contestar tal análise. Afinal, crianças não sabem esperar, vivem pulando, correndo e tropeçando nos próprios pés. Dizemos isso como se nós, adultos, fôssemos eficientes em suportar a lentidão dos “cinco minutinhos”. Nós, que estamos acostumados com salas de espera, mas sempre torcemos para que as revistas tenham sido atualizadas. Nós, que só gostamos da natureza quando temos alguma companhia para compartilhá-la. Ela, que só é bonita quando falamos bem dela. E isso se houver alguém próximo para ouvir tais ladainhas. Nós, que gostamos das estrelas, mas é só sentir o odor de algum bolo de banana distante, que corremos em direção à gula e abandonamos os astros imóveis em todo seu esplendor. Nós, que não conseguimos namorar sem trair, descobrimos tarde que todo namorado é chato, toda namorada é chata. Procuramos diversão infinita, distração inexistente, felicidade momentânea e mesquinha. Enquanto isso, cada criança consegue ficar horas a fio, lutando, sozinha, contra as ondas do mar. Aprendemos o útil, esquecemos o essencial.

Woody Allen, em toda sua genialidade, percebeu todo o contexto e sentenciou: “Como eu seria feliz, se eu fosse feliz”. Isso explica muita coisa. Estamos separados da felicidade pela esperança de alcançá-la. Pegue essa frase, substitua o último período, garanto-lhe, você poderá fazer isso por toda vida. Assim, meus caros, chegamos a outro ponto central (reparem que o tema é tão abrangente que não consigo definir nem um único centro). Esperança, o que é?

Tentarei explicar, de forma precisa, baseando-me nas teorias de Sponville. Segundo ele, esperança pode ser dividida em três conceitos principais: querer sem ter, querer sem poder, querer sem saber. Exemplificarei. Imaginamos um homem sentado em uma cadeira, relativamente confortável, em um bar. Ele não vai querer sentar em uma cadeira, porque, obviamente, ele já está sentado na cadeira. Portanto, só queremos o que não temos. Se ele se levantasse e ficasse próximo do assento em questão, a cadeira continuaria desocupada, ele ainda não teria esperança de sentar-se na cadeira porque ele ainda pode sentar-se nela. Só queremos o que não podemos. Agora, se ele fosse ao banheiro, lá ele começaria a pensar que a cadeira estava muito confortável e gostaria de poder voltar a acomodar-se nela quando retornasse. Pronto, agora sim ele tem esperança, ele quer algo por desconhecer o que está acontecendo no outro ambiente. Talvez ele tenha, talvez ele possa, mas não sabe. Queremos o que não sabemos. Talvez por isso os ignorantes sejam tão otimistas e esperançosos.

Voltemos à frase de Schopenhauer. Não estou dizendo que está plenamente correta, pois, todos sabemos, existem momentos de prazer: seriam aqueles dois meses em que estamos satisfeitos com o brinquedo que temos. Depois, torna-se chato e entediante. Porém, seria muito interessante se ele fosse eternamente divertido e confortante. Ficaríamos a vida inteira entretendo-nos com o mesmo objeto em questão, as mesmas cores, as mesmas formas, as mesmas particularidades, o mesmo brinquedo. Já ouço vozes ao meu redor gritando, explodindo, ecoando a mesma palavra: Tédio. Exatamente. Seríamos felizes por termos e não infelizes por termos o que já não queremos. Isso seria a felicidade no tédio. Conseguiríamos interromper o pêndulo, ele ficaria imóvel no lado direito, o lado do tédio. Seria também o lado do prazer, prazer no tédio. O aconchego da minha poltrona, o gosto agradável do “imenso chá com torradas”, o prazer de meu “bocejo de felicidade”.

Um livro lançado recentemente divulga um grande número de aforismos de Fernando Pessoa. Num deles, afirma: “Nunca tive dinheiro para poder ter tédio à vontade”. Muito pertinente, imagine se ele tivesse todo tédio necessário. Sua obra já vasta e complexa seria ainda mais grandiosa. Hilário que, enquanto tantos fogem, ele ficava parado, braços abertos, pedindo mais. O trabalho atrapalhava-o. Precisava dele para se manter. Isso era necessariamente chato, mas o tédio a qual ansiava não era esse que ele vivia no trabalho como contador. É um tédio que Sérgio Augusto explica em sua coluna, um “ócio inteligente e criativo” e “um vazio a ser preenchido da maneira que melhor me aprouver”. Isso que exaltamos, ócio produtivo, prazeroso, feliz; porque existe prazer no conforto, existe prazer no conhecimento, existe prazer no tédio!

Portanto, deixemos a “fumaça do cachimbo subindo”, a fumaça nos envolvendo. Gozemos esse “chá de burguesia contente”, aproveitemos essa “doçura de folhetim”. Espreguicemos com todas as forças nessa “poltrona de humorista inglês”. Bocejemos, bocejemos todo esse nosso tédio feliz.

De resto, “divirtam-se”.

 

Ricardo Berezin