You are currently browsing the monthly archive for Setembro 2007.

Os fait-divers são notícias que, sem mistificações, transmitem a dimensão da tragicomédia que é a condição humana.

Já aliterar…

Aliterar é verbo. Tráfego transmite toda tônica intransigente tangente ao tráfico de transformações temáticas. Aliterar é sujeito. Narcisa, no naufrágio do nada, nega negligência da narcotização nauseante. Aliterar é pronome. Mande-me mais melenas, mexericas, mecenas mórbidas, mandou Madonna. Aliterar é advérbio. Patrick Panacéia padece profundamente pelas ampolas polifórmicas. Aliterar é adjetivo. Renan reles réptil não recusas reinar a relva roçada. Aliterar é conjunção. Ermitão errante existe entre ébrios errantes. Aliterar é preposição. Quimera quase quebra o queixo quando queixa. Aliterar é numeral. Careca conta cálice com cabeça cancerígena. Aliterar é artigo. O ovo holerite ordenha ovelhas ocas. Aliterar é advérbio. Barbosa de barba baba biscoito bento. Aliterar é interjeição. Extra! Entrou em escola e encarnou exu-capeta! Aliterar é substantivo. Caetano comeu cento e cinco camelos contra a corrente.

…aliterar é isso aí.

 

Chico Spagnolo

Aviões caíam, Renan se safava, petistas e tucanos se complicavam, CPMF era votada, cargos nas estatais eram distribuídos aos aliados, camelôs não trabalhavam, ossadas eram achadas na serra da Cantareira e entrevistas eram desmarcadas, enquanto as formiguinhas trabalhavam na floresta. Antecipando o longo e tenebroso inverno que se avizinhava (crise dos mercados, bolha imobiliária, terceiro mandato lulista, Renan no Senado…), as formiguinhas se preparavam, procurando alimento. Trabalhavam de forma incansável (como a França de Sarkô), de sol a sol.

Uma das formiguinhas, enquanto trabalhava, ouviu uma música. Parecia alguém cantando, nada muito belo, mas incomum naquele lugar. Percebeu que era a cigarra. O pequeno inseto não se preocupava com nada, apenas cantava. Parecia não se incomodar com inverno, comida, PCC, Iraque, Ideli Salvati, nada. Apenas a música. Nenhuma “Cavalgada das Valquírias”, mas pelo menos não era nada desprezível.

A formiguinha se aproximou e entabulou uma conversa com a Cigarra:

- Mas você vai ficar cantando, mesmo sem comida e com o inverno chegando? – perguntou.
- No final tudo dá certo, deixo a vida me levar… – respondeu a cigarra.

A formiguinha logo voltou ao trabalho. Ruminou um pouco, mas se perdeu no mar de pensamentos e obrigações a serem cumpridas. Logo que os estoques estavam prontos, as formigas retornaram à colônia para invernar. E o tempo passou…

Com a chegada da primavera, as formigas retornaram a sua rotina normal. Um belo dia, a formiguinha citada anteriormente, encontra-se com a cigarra. Viu que agora ela estava bem, parecia melhor que no ano anterior. Aproximou-se e começou a conversar:

- Nossa, como você está bem! Parece que nem passou pelo inverno. Como você fez sem comida?
- Bom, logo depois que você passou, fui descoberta por um produtor musical. Assinei contrato, gravei 2 CDs de ouro, apresentei um talk-show, comprei uma mansão e um Jaguar, fiz uma turnê pelas Américas e agora vou para Paris, farei shows pela França.

- Ah, vai pra Paris é?
- Sim, deseja algo de lá?

- Só uma coisinha… Se você encontrar o VIADO do La Fontaine, manda ele TOMAR NO MEIO DO CU!

 

Luiz Giaconi

Por que diabos criticam tanto o humor nacional? À exceção dos programas que infelizmente já não dão mais certo (zorras, praças, escolinhas e turmas), o resto é bem divertido. Casseta & Planeta Urgente, Pânico na TV e Rockgol são engraçados. Veja bem: engraçados.

O argumento de que as piadas se repetem é consistente. No entanto, o humorístico mexicano Chaves o destrói sem querer querendo. Há mais de duas décadas na telinha de Sílvio Santos, ele desbanca qualquer um que atravesse seu caminho. Que o diga Ana Maria Braga, derrotada por Dona Florinda em plena estréia global.

Oras, quem foi que disse que humor deve ser necessariamente político? Não que o humor político não deva existir. Muito pelo contrário. Mas esse papo de que no Brasil só existem vadios ignorantes já deu no saco. Depois de tanto falarem na política do pão e circo, padeiro e palhaço têm vergonha até de sair às ruas.

O povo, companheiros e companheiras, tem direito de se divertir. De dar risada ao ver humoristas se matando para fazer o Galvão Bueno mexer o esqueleto. Por mais retardado que seja. Pelo equilíbrio entre entretenimento e inteligência!

 

Tossiro Yamamoto

Frase proibida da semana (e de todas as outras): ‘Ninguém é idiota a ponto de…’

Ricardo Berezin

Não sou adepto dessas práticas de vídeos difamadores. Não consegui segurar. Minhas desculpas.

 

Murilo Machado

“Top Top Garcia X Bob Fields”

 

Luiz Giaconi

- Aloa.
- Senhor? Olha, aqui é o Murilo Mac…

- Meu filho, eu sei quem você é, o que sente e quantos fios de cabelos tem. Não ensinaram isso na catequese? Só não consigo saber como soube desse telefone!

- Bem, eu conheço alguém que conhece alguém… coisas do Jornalismo, sacomé. Fora que tenho um professor de foto que não tá pra brincadeira.

- Pois bem, filho. Diga lá.
- Então, Senhor. Não liguei por mim, não. É que não consegui explicação para um ocorrido aqui no Brasil. Representantes do povo tiveram o despudor de…

- Bem sei, meu filho, bem sei. O Renan invocou a mim um sem-número de vezes e… só um instante.

[voz ao fundo] Ô, Buda! Não adianta, já falei que o controle remoto pifou. Não acha que já é hora de se levantar?

- Desculpe. Pois então, confie em mim, filho. Confie em minha Justiça.
- Tudo bem, Senhor! Mas é que o pessoal daqui tem sofrido por tantas coisas que…

- Sei que é difícil entender. Vocês ainda estão voltados a um plano essencialmente material. Preciso que confiem em meu trabalho. É o que resta para… espere um segundo, filho.

[voz ao fundo] Pelo meu Amor, Mohammed! Já não pedi para se desvencilhar desses 72 roupões de banho?

- Veja só, filho: tudo que peço é para que tenha fé. Agora devo ir, ando muito atarefado. Para que ninguém desconfie de nada e um grampo telefônico não apareça no Jornal Nacional amanhã (seria o fim dos tempos, convenha), vou transferi-lo para uma ligação aí do Brasil. Fique bem, tenha a minha benção.

….

- Perdeu!!! Perdeu!!! A coroa tá comigo!!! Duzentos real no cartão do celular agora!!!

 

Murilo Machado

As inovações tecnológicas sempre me foram apresentadas da forma mais atípica possível. Tinha ojeriza a legumes, mas podia jurar que a vitamina no liquidificador era de morango; jamais me ocorrera de sair do bairro, mas quase sempre me conectava à Internet; nunca havia brincado com um balão de aniversário, mas vivia jogando preservativos cheios d’água nos vizinhos.

Dia desses visitei meu avô. Fiel guerreiro e mentor das aterrorizantes camisinhas-voadoras, perguntou se eu ainda me lembrava dos idos tempos juvenis e da fatídica brincadeira por ele inventada. O tom do questionamento era de quem esperava uma notícia adjetivada de meu entendimento sobre o real uso do inocente brinquedo. Espantou-se com a minha discrição. De fato, nunca havia usado uma dessas a não ser pra encharcar alguém d’água. Como se espera formar um garanhão se desde os primórdios ataca-lhe o instinto animal e bélico ao invés de incitar-lhe explicitamente o sexo com uma boa revista pornográfica?

Na volta pra casa, avistei um casal discutindo freneticamente. A moça eu conhecia de olá, mas isso pouco importava. Lembrei a preocupação de meu avô em dilacerar-me a inocência, troquei de calçada mas resolvi arquitetar os motivos de tal arranca-rabo. De maneira gradativa, fui de “você roubou meu doce” a “tu beliscou minha orelha” num pé só. Custava-me ser pernicioso e imaginar algo além de meus limites puritanos.

Resolvi desvirginar-me desse passado imaculado e entrei num boteco. Lá dentro, conversei com um senhor desiludido da vida. Ele riu quando eu repeti sua profissão em tom dúbio: Cafetão?

Explicou-me que era algo semelhante a um administrador, só que o comércio dele era amor. Amor eu conhecia. Mas não do jeito dele. Nunca administrei meu amor, nunca havia pensado que amor era cabível a isso. Saí de lá com a mesma ingenuidade que entrei.

Mas saí com uma certeza. O entendimento pleno dos artefatos mundanos só é válido quando não há inocência. E é por isso que o casal estava brigando. E é por isso que não se alcança o amor. Ele é cheio de canduras e erráticas que falam por si só, explicando pra ninguém entender.

Deixo-lhes correndo atrás de coito com uma bexiga na genitália. Brinco de lançar preservativos d’água. Viro-me com a inocência.

 

Chico Spagnolo

Blog do curso de Filosofia
Prof. Dimas Künsch

Grupo "Discurso do Método"
Alunos do primeiro ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

a