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- Ei, companheiro…
A alcunha “companheiro” é encrespada de significados. Ela carrega consigo um vastíssimo capital simbólico referente à amizade e afinidade colaborativa.
- Vai passando o celular, mané, sem auê!
- Opa, na boa…
O corpo foi aos poucos se enchendo de pavor: em breve diálogo, uma nova definição etimológica quase antípoda de seu significado-raiz. O apelido, até então afetivo, agora anunciava um assalto. Companheiro-Mané como vítima. Uma grande confusão lexical. Definitivamente, não se sai incólume de uma nova transposição de acepção lingüística.
- Toma, rapaz…
Por mais improvisada que fosse a minha intenção, tentei, inconscientemente, apenas apaziguar a situação reafirmando meu passado com a educação e com as letras. “Rapaz”, eu bem sabia, designa “sujeito moço”. No entanto, “rapaz” tentava expor-me sua habilidade monossilábica, sem furtar-se da pluralidade de seus interesses. Afundou-me pelas negras águas desses e, por mais que meu colaborativismo artificial começasse a ceder, veio que:
-Nossa, essa é a sua máquina?!
- …
De repente, “ambição” mostrou-se de significado firme e forte.
- Pode ficar com essa merda. Vai com Deus.
Desde então, não aceito mais apelidos.
Chico Spagnolo
Já encheu ouvir sempre as mesmas reclamações do mesmo tipo de pessoa. O café está caro, o preço do suco de laranja não abaixa, o pãozinho agora é por quilo, o atendimento na padoca não melhora e o jornal sempre vem com os mesmos assuntos: corrupção, acidentes, tragédias, queda ou alta do dólar.
Desde que o leitor se entende por gente, parece que os problemas são os mesmos e a sua reação também. Mais do que uma conversa para matar o tempo enquanto o ônibus não chega, a grave situação do sistema de transporte brasileiro deveria ser mais presente na vida do paulistano.
Se está tudo tão ruim, por que o leitor não levanta essa bunda gorda da cadeira e faz alguma coisa? Por que não pentelhamos, enchemos o saco e atucanamos as autoridades? Por que não infernizamos a vida daqueles que estão teoricamente nos representando? Por que não cobramos o direito de averiguar a realização do programa de governo dos homens públicos? Por que não vamos às ruas gritar nossos direitos e exigir explicações? Por que calamos a boca na hora que deveríamos gritar mais alto? Por que nossa indignação somente dura o tempo do noticiário?
Mônica Pestana
Jean era um menino taciturno e curioso. Queria saber tudo e mais um pouco. E foi-se na vida, sem eira nem beira, gostar dos filósofos pré-socráticos. Culpa de sua mãe louca que contava histórias dos loucos daquele antigo tempo.
Certa vez, deixando os pensamentos sobrevoarem a névoa espessa do farol da imaginação, perguntou:
- Mãe, qual o nome do pai do tataravô?
- Não sei, filho. Seu avô sabia.
- O vovô não pode mais me contar, pode?
- Obviamente não.
- O pai do tataravô existiu?
- Naturalmente. Acontece que as pessoas esquecem.
Jean não esqueceu e indignou-se. Indignou-se com sua mãe que sabia a ordem dos filósofos pré-socráticos e seus nomes esquisitos (Tales de Mileto, Anaximandro, Anaxímenes, Pitágoras, Xenófanes, Heráclito, Parmênides, Zenão de Eléia, Empódocles, Anaxágoras, Leucipo de Mileto…), mas esquecera o nome do tataravô não conhecido.
Na impulsividade de sua infância conturbada, decidiu revolucionar o mundo dos momentos posteriores. Todos haveriam de saber seu nome até o fim da expansão do universo. Decidiu, mal pensou, e agiu. Foi à biblioteca.
Sua mãe louca, impressionada, não entendeu, mas levou-o ao labirinto dos livros. Jean, fingindo ser paciente, caminhou calmamente. Um destino certo: filósofos pré-socráticos. Catou todos os livros com tais nomes esquisitos que encontrou, despejou-os numa mesa próxima. Meteu a mão no bolso, lápis em punho. Iniciou o plano descabido.
Foi revirando, página por página, os livros de páginas amarelas. Em todas elas, ia escrevendo seu nome. Sorriso no rosto, olhar malandro, felicidade passageira. Nada restou quando foi encontrado pela bibliotecária louca. Ela ficou uma fera. Pegou-o pelo braço direito com seu braço esquerdo, o outro a levar os livros equilibrados como por mágica. Merecia um castigo.
Sua mãe louca também ficou uma fera. As feras, quando se entendem, é um inferno. Prefiro que briguem. Combinaram um castigo que pensaram ser simples. O menino Jean apagaria todas as assinaturas feitas nos livros vitimados. Pobre garoto. As feras loucas não entenderam porque a cada nome apagado, a cada passar de borracha, caía-lhe uma lágrima, entoava um soluço dos mais verdadeiramente tristes. Aiai, eco de infelicidade no labirinto de livros.
Mas Jean era persistente, era inteligente. Descobriu rapidamente seu erro. O pai de seu tataravô devia ter cometido o mesmo infortúnio. Escrevera seu nome a lápis! Fácil de apagar, fácil de esquecer. Quando o menino Jean se recompusesse do trauma, colocaria em prática o mesmo plano. Dessa vez, caneta em punho. Não haveria fera que apagasse seu nome da história. Todas as feras saberiam de sua existência até o fim da existência do universo. Ah, a imortalidade e, principalmente, nada de eco de infelicidade no labirinto de livros.
Inspiração:
Ricardo Berezin
– Aloa.
– Oi, linda!
– Oi, lindo!
– Linda, vamo no cinema hoje? A semana foi tão stress.
– Lindo, já falei pra você não usar esses estrangeirismos. Estamos no Brasil e temos a nossa língua. Vou precisar lembrar a você que nossos modos…
– Tá, linda, já sei, desculpa. Mas vamo?
– Ah, então vamo… que tá passando?
– Então, eu tava zapeando aqui alguns e vi um que…
– Assim não vai dar, Antônio Carlos! É a segunda vez em quinze segundos que você usa um estrangeirismo. Qual é o seu problema? Você, por um triste acaso, sabia que a língua é uma instituição social? E você, por um mero engano, sabia que não existe sociedade sem instituições sociais? E mais: a língua legitima uma pátria, ajuda a dar identidade, autonomia, soberania. Eu disse SOBERANIA, Antônio Carlos! Muito me admira você, um cidadão brasileiro que…
– Ai, linda, desculpa! Também não precisa disso, poxa vida. É que a gente fala sem perceber e acaba percebendo depois de perceber o que se percebeu.
– A gente uma vírgula, Antônio Carlos.
– Tá, eu… eu que falo! Agora posso falar sobre o filme?
– Tá bom. Que você viu aí?
– Olha, um aqui parece muito bom. É de um serial killer que…
Murilo Machado
André Sender
Gostaria de escrever sobre algo alegre hoje. Afinal, o dia é especial para este que vos escreve. Mas, infelizmente, é um dia de luto. Luto por um professor e amigo que se foi. Como nunca gostei nem fui bom com despedidas, espero que você, Jean Pierre, esteja olhando por seus amigos e alunos, onde quer que esteja. E que continue sendo um exemplo de capacidade, disciplina e profissionalismo para todos que tiveram o prazer de ter sua amizade ou de ser seus alunos.
Au revoir, monsieur Jean. Bien avec la vie…
Luiz Giaconi


