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A revista Caros Amigos deste mês trouxe um dos melhores conteúdos de sua história. A fim de tentar formalizar uma solução ao dilema O que é ser de esquerda?, trinta e seis entrevistados foram convidados a discorrer sobre suas percepções concernentes ao tema. Após ler perseverantemente todos os depoimentos, cheguei à seguinte conclusão: não há conclusão.
Ao analisar as declarações em um conjunto, elas se tornam desconexas e incoesas. Houve quem relacionasse esquerda a sentimentos hospitaleiros. Houve, inclusive, quem a vinculasse à posição atual de defesa do meio-ambiente. Aqueles textos denotam as matizes de um movimento partido e pouco auspicioso quando comparado àquilo que um dia representou.
Desde 1989, com o fim lamurioso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a esquerda pareceu ter-se visto perdida em meio a um mundo de transformações frenéticas. Tal dinamização descaracterizou uma corrente de pensamento até então razoavelmente definida e, em alguns casos, efetiva. Mesmo o ex-futuro-promissor Partido dos Trabalhadores se dizia inteiramente de esquerda. Hoje, seu maior representante e, por mero acaso, maior representante do Brasil, declara que não há quem permaneça de esquerda após alguns anos de estrada.
Minha posição é totalmente avessa às rotulações. Não há a menor necessidade de portar a designação de esquerda para alguém ser favorável à promoção de outrem. Da mesma maneira, não há sentido na rotulação de direita quando não se é partidário de determinadas mudanças na sociedade. Não se trata essencialmente de preconceito ou egocentrismo. Aliás, é mormente em função de tais rotulações que, por diversas vezes, o Congresso pára. Não se pode dar prosseguimento a nada, uma vez que a patota da rotulação adversária fez cara feia ou roubou um sanduíche de amendoim.
É à luz desses preceitos que digo que a esquerda, como o ideário que porventura tenha representado, perdeu as diretrizes de que se utilizava para agir. Perdeu a tonalidade do sangue vivo que serviu como seu signo maior. Perdeu a representatividade de uma autoridade prosternada. Perdeu-se.
Murilo Machado é estudante de
Jornalismo e escreve nesta
coluna às sextas-feiras.
Andando pelas ruas dessa cidade, tudo me impressiona pelas similaridades. Vivo o parecido com o antes, idêntico ao ontem. No entanto, as inúmeras igualdades quebram-se na rotina do dia-a-dia, as diferenças presenciadas seguem, insistentemente, a mecanização dos meus atos. Não se iludam, a observação é a chave para o devaneio das horas plácidas, o nada inexiste e é um milagre.
Quinta-feira, caminhando sob o sol escaldante, as mesmas travessas de sempre concederam-me uma cena curiosa, lição comovente em sua simplicidade. Um menino, havaianas nos pés, boné na cabeça, transviava seus malabares com destreza e convicção. Até aí, nenhuma ruptura na normalidade cumulativa. Porém, ao observar atentamente seus movimentos, percebi a originalidade de seu material de trabalho. Consistia em três objetos esféricos: duas bolinhas de tênis (verdes de tão maduras) e um limão (amarelo de tão podre). Mandava tudo para o alto e voltava a agarrar sem distinção.
Creio que nenhuma das pessoas, que me rodeavam com seus carros-tanques, notou a magnitude da ação. Já ouvi, diversas vezes, aquele ditado que tenta alertar-nos quanto aos possíveis limões que a vida pode mandar. A solução, nunca concordei, é preparar uma limonada. O menino provou que existe uma atitude possível além de fazer cara de azedo. Não é necessário providenciar um suco tão podre quanto a fruta, o açúcar não conseguirá enganar o paladar aguçado. Se a vida lhe mandar algum limão, trate de começar os malabares. O circo manterá os objetos em constante movimento e a platéia aplaudirá em êxtase.

Ricardo Berezin é estudante de
Jornalismo e escreve nesta
coluna às sextas-feiras.
Vivo por trás de dois olhos azuis. Vasto oceano anil. Semelhantes aos castanhos, suculentas jaboticabas, e aos negros, brilhantes turmalinas, misturam-se, hibridando emoção e clemência.
Todos iguais. Na espera pela adoção, os olhos são todos iguais.
Quando esses se fecham, em meu leito, sonho. Sonho com meu nome. Marcos. Vogais sempre me agradaram. Talvez por viver apenas com duas. Marcos. Olhos. Ambos, duas vogais. Duas formas fonéticas de esperança. Dois olhos azuis.
Lágrimas surgem na iminência do movimento de pernas da governanta trazendo novas notícias: “Duas pessoas. Um homem e uma mulher. Há um casal interessado em adotar um bebê.”
A curiosidade em saber quem são vocês. Dois olhos negros? Ana e Luís? Pais? Meus pais! Duas vogais e dois olhos a me ninar. Duas vogais me ensinando a escrever. Duas soluções. Duas.
O casal não me escolhe. Luísa e João preferiram Felipe, de olhos verdes. Ervilhas. Três vogais. A vida praticamente acaba em três.
Na fila de adoção, os olhos nem sempre são todos iguais.
Francisco Spagnolo é estudante de
Jornalismo e escreve nesta
coluna às quintas-feiras.
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