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É um bravo mundo novo, cheio de esquinas, ruas e andarilhos perdidos na noite que se arrasta por trás das pálpebras abertas, e a única diferença entre eles é que não podemos evitar as ruas, nem as esquinas, pois elas são essenciais para a nossa vida. Os andarilhos com os quais topamos a todo instante o dia todo, todo dia, ao contrário, são perfeitamente (e aceitavelmente) ignoráveis. Morar em um mundo civilizado se tornou sinônimo disso, viver mais ligado às pedras que nos cercam do que às pessoas que nos esbarram.
A tão modernizada e high-tech vida contemporânea – principalmente em centros de conurbação intensa como esse que nos cerca –, notória responsável pela libertação do conhecimento em suas mais variadas formas, exigiu um preço muito alto por toda essa sabedoria. Exigiu a alma de todos aqueles que sabem quem foi Da Vinci, Franklin, e Sócrates. Conseguimos a anatomia e deixamos de enxergar o humano que a esconde. Temos a luz, mas a iluminação está mais longe que nunca do nosso alcance. Conseguimos a razão e a perdemos no mesmo instante.
Depois de algumas gerações, essa eterna relação incestuosa entre as partes contraditórias do ser humano pariu objetos que já não se lembram dos tempos em que as estrelas eram visíveis e não os produtos do Hubble, em que as pessoas falavam ao invés de simplesmente se comunicarem ou em que o computador não era tratado como membro da família. Perdemos essa sensibilidade vivendo no campo de batalha do real, entrincheiramo-nos tão fundo na nossa própria vida que já não vemos mais muito uso para um “bom dia”, “perdão”, “obrigado” e “te amo”. Já quase não vemos mais uso para as outras pessoas. Já quase não vemos uso para nós mesmos.
Fomos adestrados pelo medo e pela incompreensão da sugestão hipnopédica do cotidiano a fim de ignorar o que sentimos. Esse tipo de excreção da alma não é bem-vinda em um mundo de falências, cortes no pessoal e tendências suicidas. Tornamo-nos rígidos, inflexivelmente frios. Receamos estender a mão para ajudar com receio de que seja apenas mais um truque, mais uma encenação.
No final das contas, tornamo-nos todos lobos na famosa selva de pedra, vestindo máscaras, encenando que ainda somos todos, humanos.
“Civilização é esterilização” Citação hipnopédica, duas vezes ao dia, durante uma vida. – Bernard Marx em Admirável Mundo Novo de Aldux Huxley.
Vitor Tritto é estudante de jornalismo e escreve com
prazer quase sexual nessa coluna aos sábados entre
uma cerveja (gelada, por favor) e outra.

Senhor Disney
Porque a supremacia, quando o é, não se faz aparente, mas eloqüente.
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Em visita ao longínquo reino de minhas reminiscências, notei que, até o exato momento em que me entendi por gente (garanto ao fiel leitor: não faz muito tempo), trazia comigo um consistente sentimento de asco pelo senhor Disney e por seus personagens – inclusive pelo cachorro de cor laranja. Não há como saber o que se passava por minha frutífera cabecinha, é fato, mas precisava-me convencer de que era um garotinho normal. Gigante, porém normal.
Vamos aos fatos. Ao passar pelo processo epifânico (sim, de epifania, lembra-se? Clarice Lispector… Ensino Médio? Pois bem) e me adequar ao padrão homo sapiens sapiens pobris di ispiritus, as criações do senhor Disney tornaram-se geniais. Não contente, pus-me a pormenorizar os fatos. As simbologias, evidentemente, vão além do que pretendo tratar aqui. Todavia, nada impede que o leitor busque por mais.
Zé Carioca: eis o Brasil. O papagaio, além da cor que nos toca, é um picareta do melhor estilo. Aproveita-se de quem está a sua volta e dá o célebre jeitinho às situações não tão ajeitáveis. Usa o amigo negro para quando tem de cumprir suas obrigações. Criado para o filme Alô, Amigos, em 1942, é o retrato mais que fiel do carioca branco do séc XX. Fantástico!
Tio Patinhas: abram alas ao Tio Sam. O pão-duro sistemático se traduz na caricatura do bom estadunidense. Assombrosamente rico e muquirana até não poder mais, atropela quem quer que seja até atingir os objetivos. Vive em função de resultados, metas. Foi criado em 1947. Incrível!
Sacaram? O senhor Disney é um filósofo social conceituadíssimo! Um de meus escassos heróis contemporâneos. Além dos personagens clássicos, as circunstâncias nas quais foram inspirados se mantêm. Reverenciemos o cientista social Walt Disney! O mestre irrefutável dos preceitos da geopolítica! Sigam-no os bons: Walt Disney para presidente!
Murilo Machado é estudante de Jornalismo. Colaborador
da Rádio Gazeta e colunista do Tirolivre.com,
escreve nesta coluna às sextas-feiras.
[ O nome de minha coluna, “Tower of Song” (música de Leonard Cohen), diz respeito ao lugar de onde escrevo. Aqui, muito acima do alcance de seus olhos, posso dirigir-me a todos de forma reservada e distante, duas particularidades necessárias para se alcançar um texto, no mínimo, sincero. Seria, como diz Bob Dylan, minha “Shelter from the Storm”; um lugar calmo, seguro, inexorável. Mantenho meu banquinho de quatro pernas firme, um ligeiro sorriso estampado no rosto (isso só acontece quando ninguém está me olhando). Começo a escrever... ]

O que muito me impressiona nos dias de hoje é o desprezo em relação ao humor. No jornal há, no máximo, duas páginas dedicadas a ele. Seria a parte da coluna social, dos quadrinhos e horóscopo. De resto, só temas tratados com muita seriedade. O último filme de comédia vencedor do Oscar foi “Annie Hall”, no longínquo ano de 1977. Realmente, rir não está com nada.
Enquanto isso, acompanho inúmeros processos por danos morais. Como adoraria conhecer essas pessoas que têm a moral tão facilmente atingida. Tudo é provocação, incitação à violência, desrespeito, entre outros impropérios. O humor, terno e gravata, disfarça-se de advogado.
Estou farto de ouvir que falta seriedade na política brasileira. O que falta nela são pessoas com a capacidade do humor, eis um sinal de inteligência. O motivo é facilmente explicado: quem possui tal virtude consegue enxergar o ridículo em si mesmo. Uma pessoa sem tal capacidade só avista o ridículo no outro. O homem que, além de não ter humor, é burro, acha tudo muito sério. Nunca vai sentir-se envergonhado por roubar, caluniar, corromper. Manterá uma postura elegante (irritante), mesmo com muitos dólares na cueca.
No final das contas, levar-se a sério é uma grande piada.
Ricardo Berezin é estudante de
Jornalismo e escreve nesta
coluna às sextas-feiras.
Atire a primeira pedra quem nunca sentiu aquele sentimento em que se misturam o ódio e o desgosto, e que é provocado pela felicidade, prosperidade de outro. Pois é, isso se chama inveja. Atire a primeira pedra, também, quem admite publicamente tal fato. É feio admitir que se é invejoso, muito feio, viu?! Nem pense em fazer uma coisa dessas.
A inveja é um dos temidos sete pecados capitais. Por isso, tentamos enganar a nós mesmos nos dizendo que não somos invejosos, mas não adianta. Todos sabemos que, no fundo, somos invejosos sim. A inveja é facilmente confundida com a cobiça, que nada mais é do que o desejo imoderado de bens, riquezas ou honras. Isso porque a maioria das pessoas invejosas também comete o pecado da cobiça. Ambos estão na moda dentro da nossa “sociedade moderna”, em que ódio, ganância, obsessão, vingança e até mesmo ignorância são símbolos de uma pseudo-honra para a maioria das pessoas.
O típico invejoso já aprendeu que não pode demonstrar o tempo todo seu desgosto por ter alguém em melhor situação do que ele ou com alguma coisa que ele queria. Desse modo, faz de tudo para se controlar, mas transparece seu descontentamento em comentários isolados e carregados de raiva e acidez. Cuidado, pode ter um bem atrás de você!
André Sender é estudante de Jornalismo. Jogador
de videogueime nas horas vagas, escreve
nesta coluna às quintas-feiras.
Muito se fala sobre cultura atualmente. Países considerados de terceiro mundo, ou emergentes, como o Brasil, são relacionados com falta de educação e conhecimento. Pinturas, esculturas e livros são objetos culturais que contam a história de uma sociedade.
Nações antigas possuem grande história e experiência o bastante para aplicar aos tempos atuais. São sociedades que freqüentam museus e teatros e se classificam como inteligentes e mais bem preparadas do que os países “contemporâneos”.
Países “pobres” não possuem filósofos ou cientistas. São considerados locais violentos e inóspitos. Mas, será que isso é verdade? Seria o Brasil, por exemplo, um país sem cultura e sem educação?
Muitos indivíduos dizem que possui cultura aquele que aprecia obras de arte. Se não vivemos nessa realidade, somos “caipiras” e despreparados. Mas, histórias de cidadãos antigos de cidades pequenas não são consideradas como cultura? O início da formação de um povoado, que se tornou cidade, não é um arquivo histórico?
Cultura é tudo o que pode ser contado e usado. Tem cultura quem sabe sobre uma história, um assunto. Olhar esculturas e quadros abstratos (muito similares a trabalhos de uma criança, não?) não significa mais do que ouvir um velho caboclo de uma cidade interiorana contar seus causos e relatos de vida. São ambientes diferentes que possuem valores distintos. Porém, não existe valor maior de um em relação ao outro. O preço de uma pintura não mostra o valor cultural que ela tem, apenas quanto somos capazes de pagar por ela. Muitas vezes são gastas fortunas para adquirir uma obra que pode ser bem parecida com um trabalho escolar de uma pequena criança.
Por que teatros como a “Folia de Reis”, muito presente no interior, não têm o mesmo valor de óperas internacionais? Por qual motivo o ”Bastião”, figura dançante desta folia, não representa tanto como uma escultura de algumas décadas? São questões a se pensar.
Não devemos classificar os objetos e os conceitos pelos valores que são impostos a eles. Devemos aproveitar as obras e as histórias da forma que sejam propícias a nós. Aprender mais e criticar menos: são as ações a se pensar. Como disse Sócrates: “só sei que nada sei”. Então, estudemos…
Pedro Siqueira Lima é estudante de
Jornalismo e escreve nesta
coluna às quartas-feiras.
Não há melhor exemplo de bravura do que uma boa adjetivação mascarada do inimigo.
Caso simples: pretendo tornar este texto o melhor até então postado neste reduto filosófico.
Para além de noções sintáticas, gramaticais e lexicais apuradas, foco a causa de minha carência de prestígio textual em meus adversários – a chamada apunhalada pelas costas –, e vou à peleja praguejando que o único motivo pelo qual o texto de meus companheiros encontra-se superior é por esses possuírem inúmeros comentários alheios, enquanto o meu nem ao menos possui elogios – criando, assim, uma atmosfera favorável à minha pequena patranha persuasiva.
No entanto, não sou corajoso ao fazê-lo. Seria, pois, valente, uma vez que a parcela de bravura me ocorre apenas quando comparo meu trabalho com o dos outros colunistas, sendo nada sem suas existências, e, portanto, de total dependência.
Vale mais admitir a baixa projeção crítico-filosófica da coluna e estudar, para que – com subterfúgios necessários a um bom texto – eu possa defender meu trabalho corajosamente, empunhando o escudo e a espada da intelectualidade, totalmente independente.
Leônidas I, rei de Esparta durante as Guerras Médicas, devia ser ciente de sua bravura. Mas, por mais que essa corresse em suas exaltadas veias “guerreira-espartanas”, a coragem do exército espartano estava em extinção, uma vez que a História precisou quadruplicar o número de guerreiros do exército oposicionista, o persa, na Batalha de Termópilas, dando a Esparta – mesmo que vencida –, a mesma atmosfera favorável a que me refiro acima.
Estou fadado ao fracasso caso queira, de fato, escrever o melhor texto do blog: identifico-me mais com a idéia de ser independente, propondo, aqui, mais uma mera, porém corajosa, reflexão.
Francisco Spagnolo é estudante de
Jornalismo e escreve nesta
coluna às quintas-feiras.
A coluna tem novo nome. O provisório e antigo, Boquiaberto (que tentava referência à sonolência e, ao mesmo tempo, indignação), dá lugar a Do Elo Cotidiano. Uma cacofonia que se percebe quando lemos o título de forma mais rápida. O duelo cotidiano tem como intenção apresentar textos, claro, cotidianos. Mas que, paradoxalmente ao título, talvez não sejam percebidos devido à rapidez de nossas vidas. Os temas deverão, pretendo, gerar reflexão e variadas posições de defesa e tentarão aproveitar conceitos iniciados em sala de aula.
Pra começar: os antigos têm razão em dizer que a juventude atual é inerte?
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Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, teimamos em não aceitar o pretérito (talvez não perfeito) e nosso futuro presente subjugado. Viver e sonhar, tal como o amor, são coisas boas. Não vou voltar pro sertão.
Somos produto de nossos pais. Nossos filhos serão produtos nossos. A ordem dos fatores não faz questão de alterar o que a aparência não engana, não. Os ídolos podem ser diferentes mas, ainda assim, buscamos heróis.
Vocês nos perguntam pelas nossas paixões. Temos consciência de que devemos encarar com braços e vozes o perigo na esquina para poder abraçar nossos irmãos e beijar nossas meninas na rua. Não neguem, nossos pais, a juventude atual e não neguemos a futura, porém. Saibamos também que o encantamento pelo jogo perdura, mas as posições nos campos já são (e serão) outras.
Os grupos sociais, as modas, muita coisa está diferente; a essência, em contrapartida, lembra o cabelo (já mais curto) ao vento. Novos meios surgiram. Quero-lhes contar tudo que aconteceu conosco. Nós, que somos jovens, iniciamos a era da Internet e vocês, a da calça jeans.
Podem até dizer que estamos por fora ou então que estamos inventando, mas todos nós abrimos sinais fechados. Têm certeza de que nunca mais viram (nem virão) gente jovem reunida? As ideologias, quais as de seu tempo? Não neguemos o passado e não sejamos instransponíveis ao cheiro da nova estação que há de vir pelo vento.
Minha dor é perceber que, apesar de não fazer o mesmo que vocês fizeram, não se dão conta de que herdamos seu habitus, pois a família constitui-se na nossa primeira experiência social. Taxam-nos de Brutus, mas nós é quem somos apunhalados. São vocês que amam o passado e que não vêem que o novo sempre vem. E provavelmente serão alguns de nós também. Ainda somos os mesmos!
Volto depois que a terceira feira terminar.
Forte abraço!
Tossiro Yamamoto é estudante de Jornalismo.
Colaborador da Rádio Gazeta, escreve
nesta coluna às quartas-feiras.
“Juntos, somos invencíveis”. “A união faz a força” (também faz açúcar). “Conosco, ninguém pode”. “Sozinhos, somos fracos; juntos, somos fortes”. “O povo unido jamais será vencido”. Quantas vezes você já ouviu bazófias como as citadas? Com forte caráter populista e nacionalista, enganaram a muitos incautos durante a historia, pois eram de apelo a união de todos para um suposto objetivo maior em comum.
União da classe trabalhadora contra a burguesia, que suga o sangue e a alma do operariado oprimido. Comparação do povo unido a um feixe de madeira, que, junto, seria indestrutível, mas, sozinho, o indivíduo seria frágil como um graveto. Quantas pessoas não pereceram devido a esses devaneios? Esse apelo à suposta união pelo bem comum realmente se importa com o bem-estar individual ou se importa apenas com o bem-estar da classe dominante? Importa-se com o indivíduo ou com o partido?
Exemplos históricos como o comunismo, com todas as suas vertentes, além do fascismo e seus derivados, apelaram para o suposto bem da maioria, com resultados catastróficos. Quantas e quantas vezes as vontades individuais foram esquecidas, ignoradas ou silenciadas pela suposta melhoria da qualidade de vida da população?
O individualismo é o antídoto contra esse veneno insinuante e extremamente perigoso. Não devemos procurar o bem comum. Devemos procurar o bem individual. Cada um por si e deus contra todos. Apenas nós mesmos sabemos o que é o melhor para cada um. Nenhum governo deve dizer que caminho seguir ou como segui-lo. Cabe a nós mesmos a liberdade total no prosseguimento de nossa vida. Isso não é uma questão de esquerda ou de direita. É uma questão de liberdade individual.
Crescendo sozinhos, acabaremos crescendo como um todo. Assim, a sociedade crescerá naturalmente. Sem interferência governamental ou externa. Somos realmente fortes quando estamos sós. Seja individualista. Isso é bom para você. E no final das contas, também o é para mim.
Luiz Giaconi é estudante de
Jornalismo e escreve nesta
coluna às terças-feiras.

